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Assisti ontem, a uma cena que no mínimo, me deprimiu. Foi algo estranho, louco, doente. Mas que me fez pensar. Estacionei o carro e antes de entrar na farmácia, fui detida, não fisicamente, por um casal que brigava. Não era uma discussão, não. Era um big de um barraco. Ambos, homem e mulher estavam bêbados. Vozes alteradas, roupas sujas, donos de uma ira imensa. Eles se batiam, chutavam, mordiam e gritavam. Muito. Por alguns instantes ficaram se embolando na calçada, em frente a farmácia. Com receio, voltei para o carro e resolvi esperar. Na verdade estava entre chocada e curiosa. A mulher gritava coisas ininteligíveis. Mas no meio de seus grunhidos, pude distinguir algo, até porque ela repetiu várias vezes: porque você não me respeita? Me respeite! Me respeite! Muitos curiosos pararam do lado, falaram bobagens e assistiram sem interferir. Soube depois que o casal passa sempre por lá, no mesmo triste escândalo. Pararam de degladiar-se quando a mulher encheu as mãos, com as partes íntimas do homem e puxou violentamente, o que foi seguido por um grande urro dele.
Quando foram embora, sai do carro e entrei na farmácia. Como disse a principio o espetáculo me deprimiu. Pensei em tantas coisas... outras fizeram eco dentro de mim...
A primeira das coisas que pensei foi a que ponto as pessoas chegam. Depois relembrei da frase da mulher e mais uma vez pensei em respeito. Parece que esse assunto mexe muito comigo. Se o tempo voltasse, e de alguma maneira pudesse interferir e dar o meu recado para a mente dela, embotada pelo álcool, teria dito que respeito somos nós mesmos que nos damos.
Admito que tenho pensado muito em respeito, porque uma coisa que me incomoda muito são os comportamentos repetitivos que temos. Sim, todos temos. Quer ver? Conheço uma moça que ficou por doze ou treze anos dentro de um relacionamento sem futuro. Primeiro foi namorada, depois se tornou noiva e por fim, depois de marcar e remarcar datas e locais, casaram-se. O casamento durou menos de três meses. Foi colocada para fora de casa. Vexatoriamente. Descobriu que o marido a traiu em quase todo o tempo daqueles longos anos. Pergunta: será que em nenhum momento ela viu o que acontecia? Nas entrelinhas das brigas, nos bolos que ele deu, ou nas vezes que disse que ligaria mas não o fez, ela não viu?
Dia desses, um conhecido meu rompeu o relacionamento. Parecia ser sério. Ele queria casar com a moça, mas ela não. Ok. Depois, reconsiderando a relação ele se apercebeu que durante toda ela, abriu mão de si mesmo, de seus programas favoritos, de seus sonhos. A troco de?
Uma outra coisa que me chama atenção são as crianças que de alguma maneira vivem relações abusivas. Toda a vez que ela age de determinada forma, o pai ou a mãe, grita, se descabela, bate ou ameaça. Mas o que me intriga é porque ela não aprende -pela dor, pelo menos- e age de forma a não receber tanta coisa ruim?
Não sei se consigo ser clara em minhas considerações. Não sou psicóloga, nem entendo muito da psiquê humana. Mas tenho aprendido muito sobre respeito, quando quebro ciclos. Assim, como a criança que 'aprendeu' que quer ser bem tratada, então passou a agir diferente, para não gritarem, ameaçarem ou baterem nela. Não é fácil. Ás vezes é tão mais cômodo, tão menos dolorido, tão paliativo viver confortável...
Sou uma eterna sonhadora e acredito mesmo que todo o mundo tem asas lindas. De cores, formatos e tamanhos variados. Abri-las não é um movimento fácil, até porque nossa natureza não nos permite voar. Mas é possível exercitá-las e viver sob o poder do vento, batendo nelas, nos levando para lugares incríveis. Creio com todo o meu coração que para que isso aconteça é preciso respeito. Respeito por si mesmo.
Não sei como foi que aquela mulher, a bêbada da cena que assisti chegou aquele ponto. Triste de se ver... mas sei que ela tem asas... pena que ela não saiba. Ou desistiu de saber. Ou a vida... e a repetição dos atos ruins contra si mesmo, fizeram com que hoje, elas não estejam abertas.
Creio plenamente, que ninguém foi feito para sofrer. Mas para isso, é preciso lutar por si. Respeitar-se. Descobrir seus limites para então, alçar vôo.
postado por Verô às 5:22 PM